O último romântico do Império



O suicídio deste jovem foi inesperado para todos: como? porquê? Parecia inexplicável. Mas os motivos nem sempre estão à vista. Para esclarecer as causas dessa tragédia, deve-se analisar o sistema de educação que engendra pessoas indiferentes sem quaisquer ideais — ou, mais raramente, românticos idealistas, maximalistas, para os quais o encontro com a vida real é um desastre.

Morte de um jovem

Naquele sarau literário promovido na sua escola, Nikolai Iaralov não recitava poesias, e quando começou a discoteca, convidava todas as meninas, embora nunca tivesse gostado de dançar. Divertia-se ruidosamente — em suma, não se comportava tal como de costume. Um amigo até lhe perguntou: «Que te aconteceu?» Nikolai retrucou: «Estou a recuperar o tempo perdido…»

Analisados mais tarde, todos esses detalhes, minudências, olhares e frases significativas, ditas como que de passagem, poriam em evidência uma verdade medonha: já então ele sabia, já então se preparava para o suicídio. Como se acalentasse e deixasse germinar esta ideia, deliciadamente. Resguardava-a como o último cartucho.

Trecho do testamento de Nikolai Iaralov:

«Sei bem o que tenciono fazer. Sei que vos causarei um grande desgosto. Tenho pena de vocês, contudo, sinto ainda mais dó de mim mesmo. Há que pôr ponto final nisto tudo. Peço-vos perdão por tudo. Tenho de resolver esta questão… Trata-se de uma questão de honra… Peço-vos para não culpareis ninguém pela minha morte. Nem a escola, nem a família — ninguém tem culpa… Enterrem-me depressa, sem quaisquer banquetes fúnebres. Não há tragédia. Tudo está bem. Sepultem-me num local elevado, com árvores, de onde se possa avistar montanhas… Queiram enviar o meu cartão da Juventude Comunista e a minha fotografia para a colónia de férias Orlionok…

«Se calhar, estou a fazer uma tolice. A ser sincero, não quero morrer, no entanto, ainda menos quero continuar a viver…»

…Na assembleia dos pedagogos da escola, reunida por motivo da morte de Nikolai, os seus parentes ouviram: «O vosso Nikolai era demasiado erudito e consciencioso. Havia que acostumá-lo mais às durezas da vida, prepará-lo para as dificuldades…»

Ele gostava de Bach e Beethoven, assim como de canções cantadas ao acompanhamento de uma guitarra. Adorava a poesia e a grande literatura russa. Gostava das montanhas e do campismo — pela primeira vez, fora levado a uma excursão pelo campo aos quatro anos.

Trecho do diário íntimo de Nikolai Iaralov: «Que sei eu de mim próprio? Sei cinco vezes mais do que os outros. Mesmo assim, continuo afazer novas descobertas todos os dias. Em termos gerais, não sou mau. Todavia, há em mim acrimónia, crueldade e arrogância.

«…O que é que eu aprecio nos meus camaradas e nas pessoas em geral? Nos camaradas, a capacidade de compreensão. E em geral, a nobreza, a candura, a urbanidade, a inteligência, a dignidade e a honradez…

«Desde a infância que o meu livro predilecto tem sido O Rei Mateus I do escritor antifascista polaco Janusz Korczak. Já o li cerca de 30 vezes, mas ainda, assim não sou capaz de suster as lágrimas no final, quando Mateus morre…

«Tenho certas afinidades com essa personagem. As mesmas ideias ’loucas’ de tomar o mundo melhor, e as pessoas, mais puras…»

…Uma tia de Nikolai levou-o a um estúdio de pintura infantil. Os seus trabalhos, expostos numa mostra, mereceram elogios de artistas profissionais. Depois, um dia, ao passar pelo Palácio de Pioneiros, ele entrou — talvez por engano? — na sala em que se reuniam activistas da organização de pioneiros. Daí em diante, dedicar-se-ia sem reserva à animação sócio-política e cultural.

Os seus condiscípulos contar-nos-iam:

— Sabem, durante o recreio, ele trazia sempre consigo os Materiais do XXVII Congresso do PCUS.

— Levava-os sempre, para o que pudesse acontecer?

— Olhem que ele não brincava, lia-os realmente.

Trecho do diário íntimo: «…Gostaria de fazer com que toda a gente vivesse bem, porém, no mundo em que campeiam os empenhos, a adoração pelo dinheiro e pela força, a infâmia e a baixeza, isso é impossível.

«O meu campo de acção é a Juventude Comunista… Nos organismos do Komsomol da nossa região já se fazem sentir mudanças, a perestroika lançou raízes, todavia, ultimamente, o seu ritmo abrandou…

«Certos jovens desprezam manifestamente os nossos valores morais, culturais e históricos. É uma vergonha pertencer à mesma união juvenil que eles… Diminuiu a importância do Komsomol enquanto organismo de educação…»

…Certo dia, a mãe de Nikolai disse-lhe, impaciente: «Já é tempo de te curares dessa mania do Komsomol!» Ele ficou mesmo ofendido.

Uma outra vez, ele disse-lhe: «Bem, mamã, amanhã não vou ao Palácio. Mas ponho uma condição: amanhã tu também não irás ao hospital. Deixarás o teu trabalho.»

Ariana Djioeva, secretária do comité regional do Komsomol da Ossétia do Sul, recorda:

— Um dia, Nikolai propôs organizar uma cooperativa agrícola escolar — com novos tractores, um campo e uma granja próprios… Ripostei que, para começar, seria melhor organizar, quanto mais não fosse, um sábado de trabalho comunista. Ele ficou desapontado. Uma outra vez, teve mais uma ideia: criar uma organização do Komsomol extra-escolar, reunindo os melhores militantes de todas as escolas num grupo «de vanguarda». De novo tentei chamá-lo à realidade: aí está o centro de animação que tu diriges — procura interessar os rapazes… Mas ele replicou, encolhendo os ombros: não é isso o que eu quero…

Sim, a adolescência é uma «idade ingrata» — mas porquê esse surto horrível de suicídios? O adolescente sente mais agudamente o impacto do stress e do drama psicológico, contudo, sempre deve haver alguma coisa a impedi-lo de deslizar para o precipício — algum sistema de defesa, algum esteio espiritual íntimo… Nikolai tinha esse esteio, tinha uma fé na sua predestinação, um ideal…

Trecho de uma redacção de Nikolai Iaralov: «É mais fácil combater inimigos manifestos, como Pavel[1] fazia… Gostaria de dedicar todas as minhas forças à libertação da humanidade e à luta pelos valores autenticamente humanistas. Sinto-me capaz disso, mas o que me impede são as condições reais da nossa vida. Todos os meus projectos não passam de fantasias fúteis se ninguém os entende. Ora o que me falta é justamente o apoio, a compreensão.»

…Um menino estranho? Ou, talvez, pelo contrário — profundamente normal? Demasiado normal?

Todos assinalam que, ao concluir o nono ano, Nikolai se desinteressou pela animação cultural. E no Verão, foi para a colónia de férias Orlionok.

Trecho de uma carta de Nikolai Iaralov: «Vi-me no meu meio natural preferido. Senti uma energia tal que até de noite pensava. Trabalhávamos muito… As nossas actividades eram orientadas por um grupo de professores do Instituto Pedagógico de Leninegrado. Que gente tão excelente! Era como se caminhássemos à frente da vanguarda da perestroika.

«Fui eleito para o Conselho da Conferência, integrado por 16 jovens, representantes de toda a União Soviética. Vou trabalhar na Transcaucásia.»

Achou assim um ponto de apoio por meio do qual, segundo julgava, poderia mover céus e terras.

Trecho de uma carta enviada (mais tarde) a um participante da Conferência:

«…Ando mal-humorado. A situação atingiu um ponto crítico. Tudo isso distrai-me do meu trabalho. Não há progressos reais. Após êxitos vertiginosos veio um período duro. Ninguém precisa daquilo que eu fiz. Não temos mais verdadeiros militantes do Komsomol. Não consigo interessá-los. Por ocasião do 70.° aniversário da Juventude Comunista, organizámos (bastante bem) uma conferência de miltantes dos últimos anos da escola secundária. Demos aos rapazes tudo, porém, nada recebemos em troca.»

Trecho da carta de Nikolai a Tania Gavrilenko[2], preceptora da Orlionok: «…Estou completamente desnorteado… Aqui, longe da Orlionok, sinto bem até que ponto idealistas e talvez mesmo artificiais eram as condições de vida nessa colónia de férias. Aquilo que eu vejo aqui faz-me duvidar de tudo: terá sentido o meu trabalho, terá sentido a Orlionok, sob a sua forma actual? Quem precisa de tudo quanto nós inventamos? No meio dessa desordem, ninguém estará em condições de fazer o que quer que seja…»

Numa das suas últimas cartas, escritas num tom desesperado, Nikolai declarou: «Não cumpri o meu dever, não fiz aquilo de que fora incumbido. Agora a minha vida não vale nada…»

Não terá a tragédia resultado dessa contradição? «Ali», na Orlionok, havia condições ideais, gente sincera, correligionários e companheiros de luta. E «aqui», só há o dia-a-dia monótono. «Uma ilha de maravilhas» — disse alguém a respeito daquela colónia de férias.

Só de nós depende, é certo, que referenciais escolher como norma: «ali» ou «aqui». Mas também é verdade que ninguém tem o direito de exigir das crianças abnegação nem fazer conscientemente com que «caminhassem à frente da vanguarda da perestroika». Que cada um escolha livremente o caminho a seguir. De resto, Nikolai também foi livre na sua opção…

Tendo-se levantado de manhã, arrumou calmamente o seu quarto. Depois, retirou as coisas que mais adorava — o caderno com apontamentos feitos na Orlionok e o retrato de Napoleão que ocupava um lugar de honra na sua estante. Em cima da sua secretaria, havia ainda um recorte de revista, um artigo sobre o suicídio de Aleksandre Bachlatchov, jovem poeta.

Napoleão… Bachlatchov… Numa canção da autoria deste poeta, um aguadeiro de cooperativa agrícola, hipnotizado por um mago ambulante, imaginou-se Napoleão. A hipnose passou, mas o aguadeiro ficou com a sobrecasaca do imperador. E não pôde viver mais.

Quem hipnotizou Nikolai? Ou que o levou a agir assim?

Feitos extraordinários. Sofrimento. Morte heroica. Ouvimos tudo isso desde a infância. Entretanto, ninguém nos fala da proeza da paciência nem da heroicidade do trabalho de cada dia. Será possível que, com a Bíblia de bolso e de mesa, tivessem caído no esquecimento os conceitos do pecado e da purificação, do dom supremo da vida e do dever de o resguardar cuidadosamente, suportando as angústias em nome do amor ao próximo?

Os exemplos de lutadores pelo futuro radioso estão sempre à mão, em qualquer antologia. E os exemplos de pregadores, missionários, pastores e médicos, de simples trabalhadores que nos ensinam uma atitude humana para com as pessoas? Se Nikolai tivesse essas «convicções»…

Na nossa pedagogia, o princípio da «obsessão» — «rejeito quaisquer variantes» — foi tido, ao longo de muitos anos, quase como um padrão. A morte de Nikolai Iaralov obriga-nos a repensar a antiga fórmula. As pessoas precisam de variantes em tudo — na escolha do comportamento, estilo de vida, pensamento e organismos sociais. E, naturalmente, na escolha do símbolo da fé.

Condensado do jornal KOMSOMOLSKAIA PRAVDA



[1] Pavel Kortchaguine, protagonista do romance de Nikolai Ostrovski Assim Foi Temperado o Aço, dedicado à Juventude Comunista dos anos 20 e 30. (N. do E.)

[2] Na publicação original em Komsomolskaia Pravda: «Trecho da carta a Nikolai de Tania Gavrilenko, preceptora da Orlionok» (Webmaster)

VIKTOR KIANITSA, BORIS MINAEV
Sputnik n.º 9, 1990.


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